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Brasil

O que o escândalo Cachoeira fala dos donos do poder no Brasil

10/05/2012

Por Leandro Ventura

O mais novo escândalo a irromper em terras tupiniquins parece ser de uma envergadura inaudita. Alguns jornalistas chamaram a CPI de “CPI do fim do mundo”, hoje começa a surgir a preocupação oposta, seria esta a CPI que vai acabar na “maior pizza do mundo”? Com tantos tentáculos e tanto riscos cruzados (se eu te denunciar pode ser que você me denuncie) é mais provável que evolua para a segunda opção, com alguns bodes expiatórios, mesmo que estes sejam contados em dezenas. O sistema precisa se preservar, mudar para continuar o mesmo. Este escândalo escancara como são não só os políticos burgueses e seus partidos, mas também a classe dominante nacional. Não faltam interessados na condução “responsável” dessa CPI.

É preciso ver o que e quem ela envolve para chegar ao que está sendo exposto com a mesma. Que traços estruturais do capitalismo e seu Estado no Brasil este escândalo, como a ponta de um iceberg, revela.

Quem e o que está envolvido neste escândalo?

Este escândalo envolve todos os principais partidos burgueses (PMDB, PSDB, PT e DEM), governos estaduais distantes e opostos (GO, DF, RJ, TO, mas praticamente não há governo sem relação com a Delta, inclusive os tucanatos paulistas e mineiros). Envolve paladinos da ética como Demóstenes Torres (ex - DEM), envolve festas em Mônaco e Paris de Cabral e Cavendish da Delta – que por sua vez tem relações de casamento e compadrio com Aécio Neves (PSDB-MG) –, enlameia as construtoras e suas relações com os partidos políticos, coloca em questão a justiça burguesa com as múltiplas relações de Cachoeira com a justiça goiana e mesmo com Gilmar Mendes do STF. Joga dúvidas em tudo que se sabe sobre o Mensalào, pois parte do que conhecemos, sabemos a partir do Procurador Geral da República Roberto Gurgel que ficou sentado anos em cima destas denúncias de Cachoeira, e também através do que Demóstenes plantou na Veja a partir de suas relações com a ABIN e Cachoeira. Este mesmo escândalo questiona o que é verdade, o que é plantado, ou mesmo o que é obtido de forma ilegal (sendo verdade ou não) pela maior revista do país, a VEJA, e por extensão leva a questionar o conjunto deste latifúndio controlado por um punhado de famílias – diversas com eminentes políticos como os Sarney, Collor de Mello, etc, que é a mídia no Brasil.

Este escândalo faz questionar o lado petista da mesma justiça (não só o Gilmar Mendes), mas também o Ministro da Justiça de Lula, Thomaz Bastos que é advogado de defesa de Cachoeira. Faz gerar dúvidas imensas sobre quem é dono do que. Seria Cavendish um laranja de Cachoeira? Seria parte desta operação de destruição da Delta algo que Odebrecht, Camargo Correa e afins querem, como já ocorrera anteriormente com outra construtora e políticos sendo implodidos como no escândalo Gautama - Ministério da Energia? Como um tal de Cachoeira (seria ele por sua vez laranja de alguém?), a partir do jogo do bicho, claro que algo rentável, pode ter tentáculos tão intermináveis e ilimitados, e para que? Tudo isto só para legalizar o jogo do bicho e os bingos?

Contra o esquartejamento interessado do escândalo e a passividade construída em como encará-lo

Raymundo Faoro terminou seu clássico livro “Os donos do poder” onde disserta sobre as elites brasileiras, seu patrimonialiasmo e a formação do que ele argumenta ser um “estamento burocrático” governante, com uma frase que marca como os trabalhadores brasileiros encararam no último período os repetidos escândalos de corrupção: “sempre foi assim”. Em Faoro, as transformações econômicas, sociais e políticas estão sempre processadas e contidas pela “túnica rígida do passado inexaurível, pesado, sufocante”. Sempre houve corrupção e o peso deste passado se reprocessando, atualizando e mudando é visível e como argumentaremos mostra não só o que é o regime burguês no Brasil, mas sua própria classe dominante. Desta continuidade não devemos concluir que sempre terá que ser assim e menos ainda, como quer a ideologia burguesa, que a aceitação passiva da mesma seria um “traço típico do brasileiro”. É só recorrer ã história recente, com todos seus limites, para encontrar os caras-pintadas e o Fora Collor a desmentir a “passividade brasileira”.

Esta passividade é uma construção tanto das condições objetivas de crescimento econômico, emprego, renda, e crédito para impulsionar um consumo expandido para além das capacidades salariais. E, mais importante, por condições subjetivas construídas pelas classes sociais e seus atuais setores dirigentes.

Em primeiro lugar, Dilma com sua popularidade recorde, consegue mostrar-se como algo diferente e oposto a seus ministros e parceiros de partido e governo envolvidos em escândalos; a burocracia sindical (CUT, Força Sindical, CTB, etc) e estudantil (UNE) blinda a presidente e todos os ministros que lhe interessa blindar. A oposição burguesa faz denúncias até o ponto que lhe interessa ou é necessário fazer. O PMDB não fala nada e ninguém espera que o centro do pragmatismo político e dos negócios coligados a este pragmatismo fale algo.

A mídia, em sua batalha por informação e óbvio – venda de exemplares e anúncios –, mostra facetas opostas (e mutiladas) do escândalo conforme seus interesses. Para a Veja, afim ao DEM e PSDB, trata-se do PT e o PMDB querendo impedir que a CPMI efetivamente puna alguém dos seus e que no máximo (para o PT) também sirva para enlamear o Procurador Geral da República e o julgamento do Mensalào. E nisto, a Veja também não quer publicar uma só linha de como Cachoeira falava nas gravações como se fosse o editor-chefe da revista de maior circulação do pais. A maior parte da mídia no Brasil sequer menciona o “lado Veja” do escândalo, há que supor por motivos gerais (também tem relações similares e interesses de frações de classe similares), mas também não deveríamos nos surpreender por motivos também particulares, quem mais será que está na conta de Cachoeira, ou mesmo na conta de alguém maior que o bicheiro e que o bicheiro seria só um operador.

Para a antípoda da Veja, a Carta Capital [1] , afim ao PT, trata-se de um escândalo centrado na relação de Cachoeira-Demostenes com a Veja. Muito menos barulho sobre as empreiteiras ou Sérgio Cabral (não que não mencione, mas muito menos que o “lado Veja” do escândalo). Regionalmente também se constroem versões mutiladas do escândalo, no Rio de Janeiro, o barulho envolvendo a Delta é maior, pois se trata de acertar o prefeito Eduardo Paes através de acertar seu padrinho político o governador Sérgio Cabral (ambos do PMDB e com interminável leque de alianças).

Os auto-intutulados “blogueiros progressistas” (melhor seria dizer filo-governistas) dão maior ênfase ao lado tucano e ao lado Veja desta rede. Há de se esperar que falem menos do lado petista da rede, mas focar-se só na mídia impressa e omitir que são os maiores latifúndios da mídia que são as redes de televisão e rádio (e sua ligação com as Igrejas – agora há quem queira louvar a Record por denunciar a Veja, e pule sua ligação com a Igreja Universal) é também mutilar o “problema do PIG” (partido da imprensa golpista como eles chamam). Parte deste PIG é da base aliada, são os Sarney e Collor com suas retransmissoras da Rede Globo e monopólio de informações em seus estados.

Em meio a tanto fogo cruzado, tanta notícia pela metade ou em frações ainda menores, cada uma condizente com objetivos eleitorais-mercantis de cada fração política (e talvez empresarial) em jogo. Para o DEM e PSDB trata-se de sobreviver, acertar alguns petistas e não ter seus objetivos eleitorais implodidos. Para o PT trata-se de acertar a oposição de jeito e/ou livrar seus quadros históricos no julgamento do mensalào. No Rio trata-se de acertar Cabral, mas encobrir as relações de César Maia e Garotinho com o mesmo Cavendish. Para a Veja e a Carta Capital vender-se como paladinas da ética, da verdade e de assinaturas. Em meio a isto e sem nenhuma direção seja de sindicato, seja de diretório central de estudantes, chamando ã rua para trazer abaixo este traço estrutural do capitalismo e dos governos no Brasil, a corrupção, o mais provável é que os trabalhadores processem passivamente mais um escândalo. Ainda assim não deixam de processar e com este artigo queremos ajudar a processar o que o escândalo Cachoeira-Delta-Governadores-Partidos-Justiça-mídia, mostra da elite brasileira em seu aspecto histórico e também contemporâneo.

Um sobrevôo sobre velhas questões teóricas e políticas sobre a burguesia nacional

Os trotskistas brasileiros da Liga Comunista Internacionalista liderada por Mário Pedrosa e vários outros dirigentes de grande estatura histórica desenvolveram nos anos 30 – antes de Caio Prado Júnior – uma tese inovadora e profundamente revolucionária [2] . Argumentavam que a burguesia brasileira nascera no campo e não na cidade, que a burguesia cafeicultora paulista apoderando-se da República pode acumular capital e fazer-se uma burguesia industrial. Sua força, no entanto, era limitada e seu desenvolvimento estava subordinado ás oligarquias regionais e ã penetração imperialista. Estas oligarquias por sua vez dependiam do Estado republicano para preservar seus privilégios.

Desta tese inovadora surgia a conclusão que da mão da burguesia não haveria resolução aos conflitos regionais, efetiva unificação nacional, resolução de um problema estrutural e democrático como o do acesso a terra (em um país de dimensões continentais e parca população) e nem haveria libertação do imperialismo. Caberia ao proletariado este papel e desde a resolução destas questões democráticas sua revolução transcreceria no socialismo. Esta tese era oposta a dominante no PCB que acreditava numa burguesia nacional e democrática e, portanto, impedia uma política independente do proletariado, com trágicas consequências em 1964. Seguramente podemos complexificar muito a tese dos trotskistas dos 30 levando em consideração algo que os trotskistas dos 30 não levavam (e nem nenhum grupo político ou intelectual levava): a questão negra.

No entanto, alguns traços fundamentais não se alteraram, esta burguesia cafeicultora e/ou escravocrata nascera no campo, era dependente do imperialismo, temerosa do proletariado e incapaz de unificar e tornar o país efetivamente independente. Este problema fundamental continua a ser a grande questão política e teórica do Brasil e obviamente, sofreu alterações com o desenvolvimento histórico das classes sociais, da economia do país e sua ligação com a economia mundial.

No entanto, com transformações, é possível ver a velha burguesia semi-colonial tomando sol e champanhe em seus iates pagos com valorização de ações na bolsa de suas “global players”. Nos iates reúnem-se os herdeiros da casa grande e das mansões dos cafeicultores da avenida paulista. Junto deles estão seus sócios imperialistas e seus padrinhos e apadrinhados políticos (difícil determinar quem nasce primeiro o ovo ou a galinha). Estes herdeiros são hoje os homens das finanças e dos canteiros de obra.

Cavendish-Delta um retrato da burguesia do canteiro de obras e do capitalismo no Brasil

O escândalo da Delta revela exatamente que esta burguesia é o retrato mais fidedigno e extenso (mas não exaustivo) da classe dominante nacional. A Delta crescera rapidamente a partir de escusos contratos com todos os níveis de governo. Em poucos anos passou de ilustre desconhecida ao posto de sexta maior construtora no país. Do faturamento em 2010, de R$ 3 bilhões, 99% vinha do setor público [3] . Cavendish é amigo de Cabral, o filho de Cabral foi pajem de seu casamento, enquanto, Aécio fora padrinho, as famílias Cabral e Cavendish foram acometidas alguns anos atrás por uma tragédia quando caiu um helicóptero indo para a propriedade do segundo, Cabral chegara na localidade de outro modo com um jatinho de Eike Batista.

A ligação da Delta com eminentes políticos e a dependência financeira da mesma com o Estado, obtento contratos livremente ou através da compra de políticos (como algumas das conversas do escândalo revelam) não é exclusividade sua. É o modus operandi da burguesia do canteiro de obras, que por sua vez molda (ou retrata) toda a relação da burguesia nacional com o Estado. A relação promíscua com os políticos, a dependência de verbas do BNDES, a associação com os fundos de pensão, associação com outros políticos nacionais e estrangeiros em diversos negócios de predação em parceiras-público-privadas e privatizações, são marcas desta burguesia que molda a cara da burguesia nacional como um todo.

A líder da construção pesada no país, a Norberto Odebrecht, conseguiu 53% de seu faturamento de R$ 6,1 bilhões do mesmo modo que a Delta: contratos públicos. Logo abaixo no ranking temos a Camargo Corrêa com 30% de seus R$ 5,3 bilhões de faturamento, seguidas de Andrade Gutierrez com 74% de seus R$ 4,5 bilhões, e Queiroz Galvão com 100% (ou seja, sem contratos privados) de seus R$ 3,9 bilhões de faturamento. Em absoluta dependência do Estado é que surgem estas famílias donas de bilionários negócios.

Os negócios destas famílias não se limitam a obras. Cavendish foi decapitado, enquanto, era só um barão dos canteiros de obra, seus concorrentes maiores são barões dos canteiros de obras e de todo o país, entrelaçadas a outros setores burgueses (nacionais e imperialistas), e ao Estado e políticos, têm tentáculos em tudo que é ramo.

O grupo Andrade Gutierrez é controlado por uma família, junto das famílias Setúbal (com o patriarca saindo como candidato do PFL ã presidência de 1989), os Vilela, Egydio Filho (governador biônico de SP na ditadura), e Moreira Franco do bloco controlador do grupo Itaú-Unibanco [4]. Este grupo que a Andrade Gutierrez participa, por sua vez controla a gigante de seguros Porto Seguro, a Elekeiroz de energia e a Itautec de informática. Em outro negócio, os Andrade Gutierrez junto aos Jereissati (aqueles mesmos, tucanos, que dominam o Ceará) controlam a gigante de telefonia Oi (a partir de várias tenebrosas transações envolvendo o BNDES, fundos de pensão e o articulador das privatizações Daniel Dantas que fora preso pela PF e solto pelo ministro do STF Gilmar Mendes).

A família Odebrecht, por sua vez, tem seu maior negócio não na construção civil, mas em seu monopólio petroquímico, o oitavo maior do mundo, associado ã Petrobrás com a estatal detendo só 40%, chamado Braskem. O grupo Camargo Corrêa também não tem na construção civil seu maior negócio. Segundo a Exame 500, só 15% de seu faturamento vem da construção civil. O restante vem de prestação de serviços, geração de energia, bens de consumo e siderurgia. Quais serviços? Rodovias privatizadas (Dutra, Castelo Branco, entre as mais famosas e importantes), serviços de água em todo o país, energia privatizada (CPFL e Light, esta segunda junto da CEMIG, estatal mineira com forte participação da americana AES), bens de consumo como os sapatos da Alpargatas (que fabrica as Havaianas) e junto do imperialismo nipônico (Nippon Steel), do Bradesco e Votorantim são donos da Usiminas.

Se estendermos estes laços as indústrias correlatas ã dos empreiteiros como as do cimento, ferro e aço chegamos a algumas outras famílias que esboçam a mesma relação com o Estado. Encararíamos então a família Ermírio de Moraes e sua Votorantim, que produz cimento, aço, e juros (Banco Votarantim), a família Steinbruck que controla a CSN, e associa-se a Vale em diversos negócios em todo o país e por sua vez associa-se e concorre com os Gerdau que tem intenso trânsito nos governos Lula e Dilma. Teríamos Eike Batista no mesmo esquema e também a família Brandão, que controla o Bradesco que junto do BNDES, Previ e a imperialista nipônica Mitsui controlam a Vale e assim por diante.

A estrutura de ações em forma piramidal no país dificulta a visualização das relações de propriedade, mas como mostra Sérgio Lazzarini em Capitalismo de laços – para fins neoliberais, diga-se de passagem – um punhado de famílias bem conectadas controlam os rumos do país. Os comitês de administração das empresas com capital aberto no país mostram uma conectividade (com dois membros em comum) 38,8 vezes maior, do que se fosse uma rede construída ao acaso (se fossem sorteados ao acaso os assentos entre as pessoas que sentam nestes conselhos a probabilidade de repetições seria 39 vezes menor). Este índice é, várias vezes maior do que é o observado nos EUA e mesmo nos países da América Latina.

Os burgueses que não são dos setores da construção civil são atraídos pelos negócios ímpares que a associação com o Estado providencia. Todos eles – não só os da construção – conseguem dinheiro dos fundos de pensão e do BNDES, mas nada como conseguir isto para erguer uma Belo Monte, que por sua vez tem o pagamento garantido pelo governo (e nem precisa procurar algum comprador para seu ferro, aço, cimento). Talvez por isto um dos grandes setores que pareciam de fora deste esquema do canteiro de obras, as famílias que controlam o “global player” JBS/Friboi estejam articulando a compra da Construtora Delta, segundo noticiam os jornais, e ninguém menos que o ex-presidente do BankBoston e do Banco Central do Brasil no governo Lula, Henrique Meirelles, seria o articulador.

Em cada exemplo destes citados acima se vê a inter-relação e dependência destes “grandes campeões nacionais” com o Estado e com o imperialismo, que aparece não só como sócio em seus grandes negócios como é determinante para junto do BNDES fornecer capitais e se associar a estes “global players”, permitindo seu espaço no mundo a custa de lucros, ações e etc. Este retrato desta burguesia das empreiteiras e ramos correlatos, e seu crescimento com ajuda do Estado e imperialismo a diversos ramos, não modifica, em nada, como há ramos inteiros da economia nacional onde mesmo os Eike Batista e Ermírio de Moraes não se atrevem a entrar – pois são domínio exclusivo do imperialismo – como a farmacêutica e automobilístico, entre outros. Esta burguesia tem algumas cartas na manga a mais do que tinha, mas o jogo permanece o mesmo, a força de uma dezena de famílias associada ao Estado e imperialismo não altera o fundamental da definição do Estado brasileiro.

Implicações políticas e no regime destas ligações da burguesia do cimento, aço e obra com o Estado

As conexões com os governos como mostramos permitem a reprodução ampliada destes negócios e a transformação do que eram pequenos construtores nos rincões do país, demonstração do atraso, das oligarquias regionais dos Sarney, ACM, etc, na demonstração do Brasil moderno e potência com suas “global players”. Há décadas todos os governos, e inclusive distintos regimes estabeleceram uma relação privilegiada com estes barões do cimento, aço e dos canteiros.

Tivemos uma ditadura cívico-militar que era afim de mega-obras, estão aí a ponte Rio-Niterói, Itaipu e a Transamazônica para testemunhar. Tivemos sob FHC estas empreiteiras saindo vitoriosas de tudo quanto é privatização. Tivemos sob o governo Lula, e agora sob direção de Dilma, o lançamento de um programa a imagem e semelhança desta burguesia, o PAC. Com Lula e Dilma estes setores se beneficiaram como nunca, viraram “campeões nacionais” e seus lucros idem. Não é de estranhar que das fileiras destas empresas saiam as maiores doações legais para os políticos burgueses e delas também diversas denúncias de doações e relações “extra”-legais. Cachoeira, Delta, Cabral, o Mensalào, são só pontas de um iceberg que caracteriza o que é o setor mais influente da burguesia nacional e suas relações com os distintos imperialismos e o Estado.

Enquanto se associam aos políticos, ao BNDES, aos fundos de pensão controlados pela burocracia sindical governista e pelo próprio governo, e ao próprio governo como pagador dos contratos da construção civil, um punhado de famílias (incluindo imperialistas) amassam uma quantidade crescente dos recursos nacionais. Segundo a revista Exame 500 de 2010 – publicada em 2011 –, os 200 maiores grupos privados (são muito menos que isto, pois alguns estão listados em repetição como Itaú-Unibanco e Porto Seguro) realizaram vendas de US$ 1 trilhão em 2010, quase 50% para um PIB nacional de US$ 2,2 trilhões, e esta fatia cresce ano a ano como pode-se comprovar indiretamente com o crescimento das 500 maiores empresas (e não grupos, que controlam várias empresas) que passaram de 29% do PIB em 1973 para 58% em 2010. Karl Marx e Friedrich Engels haviam chamado no Manifesto Comunista o governo capitalista de um “comitê de negócios da classe capitalista”, a versão nacional vai além. Lênin em O imperialismo, fase superior do capitalismo, expunha as transformações que ocorriam na esfera da política quando a burguesia se tornara uma classe reacionária em toda a linha. Aqui a fusão do capital das obras com o capital bancário, e financeiro imperialista com auxílio do Estado atualiza estas teses.

Com esta formação social não há forma democrática nem forma não corrupta de governo possível. Trata-se de intermináveis associações de parentela e compra, necessariamente escondidas das massas, e mesmo de um outro corrupto/corruptor. Trata-se de um motor permanente de arapongagem, denúncias a veicular no parlamento e no latifúndio da mídia que os mesmos políticos e burgueses controlam. Trata-se de uma classe dominante e dirigente parasitária em um sentido muito mais direto do que usamos normalmente na literatura marxista. Ela é literalmente parasitária, sem o Estado não vive, e por sua vez políticos que sem o auxílio político e financeiro destes parasitas também não seriam nada. E para terminar seu quadro parasitário faz votar para si mesma, ou pelo menos para seus articuladores políticos, salários e benefícios que nenhum trabalhador pode ter.

Aqui não se trata somente de um comitê de negócios de uma classe para sua preservação e interesses (o que ela faz não só no sentido histórico de 1964, mas conjunturalmente também, para garantir uma incrivelmente rápida mobilização de tropas para sufocar rebeliões operárias em Jirau, Santo Antônio). Aqui temos um balcão de negócios particulares além deste comitê geral. Estas múltiplas ligações da burguesia com o Estado mostram como humanizar este Estado é ainda mais impossível.

É uma ligação estrutural, fruto da fraqueza desta burguesia frente ao imperialismo e ao proletariado, e há interesses incrustados sejam desta burguesia como dos políticos burgueses dominantes que sustentam estes negócios e são sustentados por estes burgueses. No Brasil, com estas características particulares, não há como fazer uma crítica da corrupção sem fazer uma crítica do capitalismo, sua classe dominante e seu Estado. Toda tentativa de humanizar o existente, varrer os corruptos como enfatiza o PSOL, quando dissociada desta critica estrutural e a necessidade de uma mobilização independente dos trabalhadores para varrer não só os Demóstenes, mas os empreiteiros-banqueiros por trás dos mesmos, serve para a burguesia. Enquanto os trabalhadores olharmos só as pontas de iceberg, toda a vida submarina de monstros pré-históricos, apoiadores da ditadura, possivelmente alguns deles com ligações de parentesco com os escravocratas e mesmo os herdeiros das capitanias hereditárias, seguirão com suas novas caras de global-players, parceiros do “desenvolvimento nacional” a sugar a riqueza da nação, a militarizar os canteiros de obras, a sustentar seus negócios com juros abaixo do mercado oferecidos pelo BNDES (custa de toda população brasileira). É preciso sacudir a passividade com que se encara esta nova crise de corrupção, este sacudir começa por entender o Estado, o regime, e a classe dominante no Brasil.

Um programa para começar a enfrentar a corrupção

A partir desta compreensão é que se depreende um programa para enfrentar esta crise. Os trabalhadores precisamos nos desvencilhar de cada interesse que quer particularizar e mutilar este escândalo. Precisamos conhecer tudo. Para isto é preciso organizarmos uma investigação independente, colocando sindicatos classistas e diretórios acadêmicos comprometidos com os interesses da classe trabalhadora a serviço desta investigação. Não se pode esperar da CUT, da UNE, nenhuma mobilização independente nem uma apuração mais do que parcial neste escândalo. Deve-se recuperar os organismos que compõem as bases dessas entidades para recoloca-los a serviço dos interesses da classe trabalhadora e do povo. Querem desgastar a oposição e o “PIG” para vingá-los nas urnas e favorecer outros meios de comunicação, igualmente burgueses, que julgam “progressistas” porque querem a morte de seus concorrentes.

É preciso lutar por muito mais que algumas dezenas de cassações e mudanças nas urnas, é preciso ir ao que está por trás dos Demóstenes, Cachoeiras, é preciso ir atrás de sua base material. Pelo confisco de todas as propriedades de corruptos e corruptores! Que suas propriedades urbanas sirvam para reforma urbana e suas propriedades rurais sirvam para a reforma agrária, que seus monopólios de meios de comunicação sejam expropriados e colocados sob gestão dos trabalhadores e para que estes recursos sejam usados por sindicatos, organizações populares, movimentos artísticos e culturais! Pela expropriação da Delta e não sua compra por mais um “global player” financiado pelo povo brasileiro através do BNDES! Uma gigante da construção estatal, sob controle de seus trabalhadores, garantirá não só um uso racional e honesto dos recursos públicos, como melhor segurança no trabalho, mas seria também um grande passo para um grande plano de obras públicas, controlado pelos trabalhadores para que os recursos humanos, materiais e financeiros das grandes obras estivessem a serviço de garantir os interesses mais sentidos dos trabalhadores como moradia, saneamento, educação, saúde. Pela expropriação da Veja sob controle dos trabalhadores para que seus imensos recursos gráficos sejam usados livremente pelos trabalhadores e estejam a serviço de difusão de conhecimento, debates, e não pautada por interesses escusos daqueles que são os herdeiros das Casas Grandes e as mansões da Avenida Paulista!

Derrotar os envolvidos neste escândalo não elimina as bases para a corrupção que se localizam em quem é a burguesia brasileira e qual é sua relação com o Estado. A tarefa é hoje, portanto, partir desta luta pontual para levantar o conjunto destas bandeiras programáticas como alternativa para a classe trabalhadora diante desta situação. Ao mesmo tempo, é preciso darmos uma batalha para construir uma forte organização de trabalhadores e da juventude rumo a construção de um partido revolucionário que seja capaz de colocar essa perspectiva em prática.


[1] Muitos jovens e trabalhadores têm ilusões nesta revista por esta defender, linha geral, posições progressistas, mas é preciso lembrar que ninguém é representante da centenária revista inglesa arqui-liberal Economist, ã toa, por “progressismo”.

[2] Para mais ver a seção “IV Internacional no Brasil”, disponível no site da LER-QI.

[3] Estes dados e os seguintes sobre o faturamento das empreiteiras foram todos extraídos da publicação “500 grandes da construção”, julho de 2011, publicado pela revista especializada O Empreiteiro. Disponível em: www.revistaoempreiteiro.com.br

[4] Este dado e outros que seguem, salvo indicação contrária, foram obtidos em Capitalismo de Laços, de Sérgio Lazzarini. São Paulo, Editora Campus 2011.

09-05-2012

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